Minha memória raramente falha. Era uma noite quente de algum dia de 2002 e eu estava na casa da minha avó para dormir por lá. Naquela noite despretensiosamente estava assistindo a MTV e passava um programa chamado Drops MTV com apresentação de Rafael Losso. Ele dava uma dica musical que me persegue até hoje, é impossível não escutar Sondre Lerche. Foi amor a primeira vista.
Antes de mais nada, como se pronuncia Sondre Lerche? A fonética se aproxima de Sondre Lairkia. Mas acredito que ele não se importa de nós inventarmos uma pronuncia mais confortável. Sondre Lerxê. Sondre Lerke. E por aí vai…
O rapaz norueguês nascido em 1982 foi inciado no ramo musical muito cedo, aos 8 anos começou os estudos musicais e aos 14 anos já tinha sua primeira composição . Seu talento não demorou muito para ser percebido. Lerche se apresentava no pub onde sua irmã mais velha trabalhava e foi lá que um produtor musical norueguês resolveu guia-lo profissionalmente. Ao completar 16 anos assinou seu primeiro contrato com a grande gravadora EMI. Apesar de ter seu contrato assinado muito cedo, seu primeiro álbum só foi lançado após atingir maioridade.
Seu estilo muito próprio tem influência entre outros estilos de músicas dos anos 1960 (The Beach Boys), 1980 (A-ha), e o mais impressionante MPB. É fácil perceber as levadas de Bossa Nova que Lerche inclui em várias de suas composições. O cara não deixa sua relação com o Brasil terminar apenas por conhecer nossas músicas, ele é amigo íntimo de Milton Nascimento. Por algumas vezes já mencionou o nosso compositor em seu blog.
Em 2002 o álbum Faces Down, que já havia sido lançado em seu país natal um ano antes, estourou nos EUA e a Rolling Stones classificou o disco como um dos 50 melhores álbuns daquele ano. Sua discografia seguiu com os bem criticados Two Way Monologue (2004), Dupper Sessions (2006), Phantom Punch (2007) e Heartbeat Radio (2009). Em 2007 também foi responsável pela trilha do filme Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life).
Infelizmente seu nome é pouco divulgado aqui no Brasil e conseqüêntemente seus discos só chegam aqui importados. Você pode escutar as músicas do Sondre Lerche em seu myspace. Fiz minha parte em compartilhar com vocês um nome de qualidade da música internacional e de longe um dos meus artistas favoritos. E deixa eu me fazer claro mais uma vez: NÃO DEIXEM DE ESCUTAR O ÁLBUM ‘FACES DOWN’.
TweetCada batida sentida da bateria localizada exatamente atrás dele enquanto ele, naquele palco, encerrava o show com seus últimos acordes, era um motivo para se inspirar. Se inspirar para qualquer coisa. Compor uma música ou pensar em se matar. Os gritos, as luzes, e a batida cada vez mais lenta, porém cada vez mais forte lhe causava uma sensação indescritível. Mas nada seria igual se não estivesse na platéia naquela noite, uma completa desconhecida que não percebia ser alvo de seu olhar de artista mais detalhista, como nunca fora antes.
Fez seu último gesto de gratidão a platéia, ou àquela rapariga e pôs-se em retirada do palco. Passou pela coxia escura e com cheiro de mofo, desceu as escadas de metal e enferrujadas em forma de caracol. À suas costas o seguia um câmera man que terminava o registro em vídeo daquele show. Depois do turbilhão de sentimentos que ele nunca havia experimentado antes, todo o registro se tornou bobo. Não quis soar antipático. Obrigado, gente, valeu. E fechou a porta. Mas sua vontade mesmo era apenas de fechar a porta. Queria muito colocar tudo em seu lugar. Antes ligou para seu empresário. Não receberei fãs hoje, não tenho condições, estou exausto, algo me tomou.
Cuidou para que sua guitarra fosse enviada com o cuidado de sempre para seu quarto de hotel. Ela seria a companhia adequada para a noite que enfrentaria. Saiu sem falar muita coisa para quem estava na casa de show. Sem que notassem, ele dispensou os seguranças e os motoristas. Sua atitude de anônimo foi o disfarce perfeito. Dirigiu-se até a beira da calçada, estendeu a mão e antes que pudesse gritar. Táxi. Um sedã branco estava estacionado a sua frente. Entrou, sentiu um cheiro estranho, pensou o que poderia ter acontecido naquele carro, mas não estava com muita paciência para fazer suposições. Avenida Atlântica 1702. A corrida não custou muito, qualquer preço era pagável para libertar o mais rápido possível o que estava preso em si.
Chegou a pisar no lobby do hotel, mas sentiu o cheiro da maresia e lembrou que poderia ser bom, poderia não, era totalmente adequado andar na praia naquele momento. Foi calmamente até encontrar a maré raivosa. Parecia estar conversando com ele. Caminhou uns dois quilômetros e voltou. Seus pensamentos e sentimentos ainda estar todos embaralhados, porém de alguma forma mais acomodados. Como se cada coisa em sua cabeça fosse pedaços de papeis picado girando rapidamente em frente a um ventilador ligado, como em um dos efeitos finais usado em seu show.
De volta ao lobby do hotel. Olhou para cima e teve a memória de como aqueles lustres de cristal lembravam o de outro hotel em que estivera no passado, no início de sua turnê, quando nunca imaginou que sentimentos tão poderosos o tomariam. Sei que são iguais ao do outro hotel. Apertou o botão dourado meio descascado e aguardou o elevador descer, era de costume acompanhar no mostrador a localização do elevador, até mesmo em outros dias de sua estadia no hotel ele o fez, porém ali não sentiu tal necessidade. Entrou no elevador e percebeu que a mesma música assombrosa que tocava no saguão também tocava no carro do elevador. Alone Again nunca lhe soou tão estranha. Por sorte, quando se deu conta, já era anunciado que ele estava em seu andar.
Caminhou pelo corredor percebendo a textura do carpete aos seus pés, carregando os sapatos na mão, tirados ainda na praia. Procurou a chave do quarto, e lembro que não era mais uma chave, era um cartão, o gesto impensado foi um hábito que carregava de procurar as chaves de casa. Tomou-lhe o quarto com a sua presença, acendeu as luzes, e suspirou de alívio ao ver que sua guitarra já se encontrava em cima de sua cama, por cima de lençóis certamente de fio egípcio.
Depois de tomar um banho, gostava de ver a fumaça de vapor invadir o quarto. Vestiu um pijama, sentou a cama, fechou os olhos e começou a dedilhar o que poderia ser a sua melhor canção. Preciso me recordar como era ela, suas feições e aquele olhar. Maldita luz que me cegava. Mas eu vou conseguir lembrar de cada detalhe. O que eu não conseguir, por não me lembrar ou por não ter visto, construirei eu mesmo e sei que vou estar certo. Cochilou.
Um susto o acordou e não acordou assustado. Foi como um daqueles sonhos em que se tem a clara sensação de estar caindo às escadas. Não podia cair. Não podia cair. Voltou a dormir e em sonhos foi sendo revelado o que lhe faltava para compor a melodia e a letra daquela canção que apesar de ser uma balada de amor cada nota foi estrategicamente colocada para fazer qualquer um que ouvisse chorar.
Acordou novamente, mas percebeu que o café da manhã já não estava mais servido. Ligou para a recepção e pediu que lhe enviasse um papaia e um iogurte natural. Recebeu o mensageiro que prontamente atendeu seu pedido e deu-lhe uma gorjeta generosa. Dinheiro pouco lhe importava.
Terminada a canção, ele a escutou várias vezes para ter certeza de que era exatamente aquilo que ele precisava expressar para se libertar do que tinha em seu peito. Talvez só com o distanciamento de sua criação fosse possível ter essa certeza. O ventilador de sua mente ia ficando cada vez mais devagar e os papéis mal existiam. É isso, é isso. Preciso mostrar a ela. E novamente o ventilador se ligava, os papeis picados voavam novamente. Era a angústia de fazê-la saber que aquela música foi composta pra ela. Papéis picados voando para todo lado.
Antes de pensar em lançar seu novo single, seu melhor single, sua obra mais inspirada, era preciso voltar a seu lar. Enfrentou todo os rotineiros passos dentro do aeroporto e ainda na sala de espera comunicou por e-mail seu empresário. Hoje a noite trabalharei na gravação da minha nova música, preciso disponibilizá-la o mais rápido possível, pode ser internet, tenho pressa, algo em mim tem muita pressa. Enviar.
Não levou muito tempo para que sua música fosse lançada, elogiada e atingisse o topo das listas mais conceituadas das revistas de música do país. Mas o ventilador agora só desligaria com a certeza de uma só pessoa ter escutado essa música. Mas é claro que ela escutou, ela estava no meu show, por que não havia de escutar?
E escutou. Poucos dias depois do lançamento de seu melhor trabalho, ela deu fim a sua vida ao som da balada que foi estrategicamente composta para fazer qualquer um chorar. Mal sabia que a música que ela escolheu para tocar em seu aparelho de som era composta para ela. Talvez se soubesse teria sido o necessário para lhe poupar a vida. Se sentir amada. Ela era, só não sabia. Assim como ele não sabe, com certeza, se ela havia escutado sua música. Sendo assim espera por ela depois de todos os shows onde a regra é estrategicamente clara. Hoje receberei meus fãs.
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E quando uma produção americana resolve fazer um filme sobre o Brasil? Já vimos infelizes produções em que o país é tratado como um pedaço de terra longe da civilização. Alguns filmes ajudam a deturpar a imagem do Brasil. Filmes como ‘Turistas’, aquele episódio em Os Simpsons – que tudo parece ter se justificado por ser apenas um seriado debochado -, ou mesmo a geografia estranhíssima de ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’.
Tá certo que não é fácil retratar uma cultura em que você não está inserido. Com certeza a maioria das pessoas pensam em comedores de junkie food e eleitores de Bush quando lembra dos EUA; artistas magros com bigodinhos finos pintando quadros em frente ao Louvre ao lembrar da França; famílias escandalosas ao pensar na Itália; e tantos outros esteriótipos espalhados pelo globo. Em Rio, Carlos Saldanha, diretor carioca, consegue reger sua equipe, quase toda estrangeira, sem deixar que eles se contaminem pelos grande esteriótipos definidos para o Brasil.
Ainda sobre esteriótipos, é errado pensar que pelo filme se passar em época de carnaval ou vermos personagens aficionados por futebol faz com que ele se torne estereotipado. Samba e futebol são elementos fortes no nosso cotidiano e dignos de serem retratados. Para que exclui-los? Apenas para dizer que o Brasil não é só samba e futebol?
Por se tratar de um filme de animação em que crianças estão inclusas em seu público-alvo fica difícil retratar o país e a cidade como ela realmente é, mas nem por isso assuntos como a malandragem, desigualdade social e contrabando ficaram de fora, porém foram mostradas, por conta do target, de uma forma eufêmica. Não estamos tratando de um documentário e sim de um filme com uma pegada infantil.
A direção de Saldanha é empolgante, é ampla e seus movimentos de câmera sabem traduzir a leveza dos pontos positivos do Rio de Janeiro. Em aspectos técnicos, a Blue Sky, produtora do chatíssimo A Era do Gelo, não deixou nada a perder para a intocável Pixar, inclusive soube superar produções, como Carros, da concorrente. Por vezes é de se arrepiar com o visual das paisagens da cidade maravilhosa.
Eu paguei a língua pelo que eu pensei sobre a trilha-sonora. Eu achava que Sérgio Mendes, por mais competente que fosse, ia deixar as coisas morrerem em ‘Mas que Nada’. Engano meu. A trilha é um dos grandes trunfos do filme. Por mais que tenha faltado um batidão de funk e em algumas músicas deixe de existir traços 100% brasileiros, o material produzido por Sérgio Mendes e Carlinhos Brown é de extremo bom gosto.
Da safra de produções de filmes em 3D, que nos persegue desde Toy Story, Rio é sem dúvida uma das minhas preferidas. Carlos Saldanha fez uma linda homenagem a sua cidade e nos contou de um divertido ponto de vista como um animal domesticado se relaciona com o mundo selvagem.
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